31.12.06

60

domingo mais uma vez

já vivi mais de dois mil domingos e ainda não me acostumei

imenso domingo

muito mais do que preciso

muito embora eu não possa mais mentir

minto dizendo que se justifica nutrir esperanças que não tenho

o que tenho é medo do próximo passo

medo de que após a vida haja outra vida

então encolho-me no cubículo

procuro esquecer que vejo o mundo que vejo

fico com a sensação de estar na beira da voragem

que nunca quis me matar

ela me quer vivo

30.12.06

59

é tarde é domingo é tudo que da vida nunca quis

são aquelas coisas que não basta imaginação para contornar

minha vida no mundo é como minha vida em mim

chata

este monte de eus ruminando dissabores

opacos

dentro de mim há um cubículo sem luz sem movimento que com nada se comunica

dentro de mim morre-se todo dia

sepulturas sob lápides de desespero

dobra-se sempre a mesma esquina no mesmo sentido

29.12.06

58

a sensação é de que só ocupo espaço neste planeta

de que nada faço que qualquer outra coisa não poderia fazer

e quando não estou na dor estou a um marasmo da dor

quando há prazer é um prazer rapidinho

só pra lembrar quão ruim é viver sem prazer

um prazer que nem dá tempo para um fôlego antes de afundar novamente

e quando afundo não há memória que me faça dizer que todo este marasmo e toda esta dor valem a pena

que nada

não vale a pena viver quando a existência do vivente incomoda até mesmo o próprio vivente

não vale a pena gastar espaço ar água e comida com alguém assim

que com tanto no mundo nunca fez nada de valor

um dispêndio imoral

um desvio de finalidade

que não merece nem a cova que seus ossos ocuparão

alguém que nunca fez nada por ninguém

e que não tem por que crer que mudará

28.12.06

57

a razão por que deus colocou certas criaturas no mundo

só pode ter sido o desejo de sacanear

porque admitamos

nada ou muito pouco é mais engraçado de se ver que uma rixa uma troca de picuinhas as velhas futricas

só sofre quem perde

é o ônus da disputa

e agora que não passo de um nada graduado

surge um nada a desafiar-me

porra será que não é um tanto cedo

será que a disputa é tão desesperada que até um zé-mané subgraduado como eu tem que ter um êmulo

será que nunca acabam os desafios idiotas

por coisas que se obtidas em paz são ótimas

mas que mediante luta e disputa perdem todo sabor

não me agrada nem um nada pensar no que me aguarda

não sei lutar lutas sutis

e tenho um puta medo de lutas desabridas

em ambos os tipos a gente apanha

só que num deles não se vê de onde veio a pancada

27.12.06

56

choverá até quando deus quiser disse a meteorologia

ou até depois que ele não queira mais

se esta chuva não for como eu

que tão fácil cedo

como eu queria poder transformar à vontade o tempo e o mundo

toda essa conversa do sujeito que alcança os poderes divinos e deles abre mão ao concluir que o titular usava-os mais habilmente

pois bem toda essa história cheira tão forte a conformismo

conversa de bundão

que se acha inteligente

feita para demonstrar que tudo de bom deste mundo não vale a pena

o que pode até ser verdade

mas se o é por que tão poucos têm oportunidade de experimentar para tirar conclusões a partir da própria experiência

isso tá com cheiro de caô

até porque nunca ouvi falar de alguém que largasse a rapadura depois de conseguir cravar os dentes nela

pobres de nós idiotas

26.12.06

55

falo por falar

e sai cada merda

pior quando fica engraçado

não é porque quis fazer graça

é porque sou patético

esta angústia

como é muda

nada me comunica

só pesa e emudece

não tenho como descrever

nem prosa nem poesia

alego sem prova

só esta busca sem gosto

este resultado tão anemicamente artístico

silêncio que a noite reforça

e lá dentro a turba

sem cujo tormento já nem sinto paz

falta de palavra falta de lugar para ir

falta de interesse

é de nascença

e eu sempre crendo que vai mudar

bendita tolice

morrerei diante de um televisor

sem legado

pois eu mesmo seria o primeiro a assinalar minha falta de talento

se eu não fosse eu

o mundo gira tão devagar

a vida vai tão rápido

e ainda assim não termina

25.12.06

54

carnaval é um pé no saco

aliás pouquíssimas coisas deste mundo não o são

e conheço pouquíssimas dessas pouquíssimas

e nenhuma das que conheço está ao menos perto das melhores

coisas vagam em minha mente

uma nada tem a ver com outra

mas todas ficam tão iguais no fim

tudo leva a nada

sei lá que importância essa porra tem

mas acho-a importante

diante de mim os fatos

sei lá se autênticos

mais que do mundo

eles falam de mim

e embora tudo seja sem sentido

ainda percebo o ridículo

e meu lugar no mundo

nem deixei de notar a coerência dos acontecimentos que forçam minha permanência na vala divina

tudo conduz a um resultado previsto e no fim não passo de um animal de laboratório montando quebra-cabeças buscando sair de labirintos recebendo inoculações incógnitas

mais um

24.12.06

53

nem todo conhecimento deste mundo poderá acabar com esta ignorância primordial

à medida que o conhecimento nos muda o mundo lá fora muda também

de modo que a relação nunca se altera

é o cachorro ad aeternum correndo atrás da própria cauda

nunca muda nunca acaba

a história não precisa ser interessante nem original

ela não passa de um registro pretensamente duradouro e invariavelmente parcial dos fatos

como nosso próprio conhecimento

que nunca nos diminui o abestalhamento

a vida e seu peso

boquiabertamente pesado

muito além de nossas expectativas

a vida e seu modo nada sutil de fazer-nos ouvir infinitas vezes aquele mesmo trecho do mesmo disco no qual a agulha pula e sempre retorna ao mesmo ponto

e sempre repetimos a mesma dança

uns melhor

outros nunca

23.12.06

52

quem dará as costas a quem

eu ao mundo

o mundo a mim

ou ambos tergiversamos

como seja o mundo não parece ressentir-se disso

quer dizer ninguém nega que o pobre do mundo pelo menos aqui na superfície está uma merda

mas isso decerto não se dá por falta minha

nem vem

também não menciono isso para que alguma alma generosa venha dizer-me que nada deixa de coisa você é mais que importante para o mundo

palavras generosas são a coisa mais mesquinha que existe

só fazem bem a quem as diz

hoje me neguei a pagar uma barra de chocolate para uma criança maltrapilha

não me sinto bem por isso

fica-me aquele bichinho mordiscando a consciência

mais um

o resto é só medo

medo da raiva dos despossuídos

quando vêem meu carrinho cheio de compras

22.12.06

51

como é bonito este cruel sol do cerrado

quão vasto vê-lo nascer e morrer

torturando minhas retinas

que extremo este lugar irreal

esta ilha da fantasia

onde tão fácil se esquece a miséria a um olhar de distância

isto aqui tem um tanto de delírio

não o cerrado

mas nós que erguemos monumentos a memórias inexistentes

nós

para quem sobrevivência e preservação virou sinônimo de perversidade

que só vivemos se matamos

simplesmente porque a vida se encaminhou para isto

e nem este sol nos aplaca

nem a felicidade

pobre felicidade

nem a felicidade suplanta este desejo férvido de matar

o sol se põe no cerrado

nem vejo

hoje como há muito só chove

chove de fazer goteiras no crânio

e desejos cruéis

que nem o maior dos sóis

21.12.06

50

esperar o que sabemos que chegará já não é muito bom

ainda mais se não sabemos com certeza quando

já a espera do que nem sabemos

eis a vida dos desesperados

é o caminho que dá voltas sobre si próprio e termina num infinito sumidouro

é viver no fim do mundo com o mundo a olhá-lo ora com tristeza ora com desgosto ora com compaixão e quase sempre com completa indiferença

e a dizer-lhe sem porém estender-lhe a mão calma não é o fim do mundo

não de fato não é o fim do mundo

é o fim de mim

ou a falta de começo

o que seja

qual a diferença afinal

se fazemos inesperada a morte tão certa

se ficamos atarantados perguntando para onde vou agora diante da fera em pleno bote

se brincamos de cegueira e depois descobrimos que realmente não podemos ver

a desorientação torna-se o norte da vida

e a sensação de que há algo de errado

mesmo que tudo esteja irremediavelmente certo

20.12.06

49

se o tempo já tivesse passado

e ainda assim estivesse por ser vivido

então se poderia saber de antemão se valeria ou não permanecer aqui

pois confesso

estou com o saco meio cheio das surpresas da vida

que só têm feito me mostrar o quão surpreendente é viver sem surpresas

ou com surpresas do tipo a morte bate na porta

que só confirmam que o único lugar seguro neste mundo é um caixão sob a terra

inês é morta e nem por isso a felicidade

a felicidade é cara e efêmera

mesmo quando não custa nada

mesmo quando as tristezas nem são tão tristes

sinto-me devastado

sinto-me castrado e condenado a viver longe do que amo

longe da própria capacidade de amar

e dentro de mim algo ficou seco por tanto tempo

que agora mesmo que seja regado

o máximo que vou obter será um cadáver úmido

de olhar pétreo

19.12.06

48

suspeito de minha honestidade quando digo coisas do tipo hoje não me sinto alegre nem triste

ninguém é assim

nada é tão neutro

nada pode ser

nada no mundo pode estampar tamanha mentira com cara tão limpa

aqui só há alegres e tristes

e acredito que haja alegria e tristeza em iguais quantidades

e que com elas ocorra o mesmo que com a riqueza e a pobreza

poucos pouquíssimos podem saborear o macio e saboroso filé

enquanto muitos muitíssimos precisam roer o osso com granítica consistência a ser quebrado pela boca banguela

que nunca sentou diante de um prato cheio

de simples rango ou de fina iguaria

da qual nunca nem uma migalha pôde com os lábios roçar

e ainda deve ouvir esses trastes desses pastores pentecostais sem poder sentar-lhes uma bela marretada no crânio

18.12.06

47

o poder é relativo

ser inseto ou inseticida

assim se determina quem senta nas cadeiras

e por mais que se reclame da desigualdade

é da boca para fora

mas repercute

pois provém da maioria que fica fora do banquete

na verdade nunca buscamos igualdade

em todos jaz recôndita a esperança de um dia segurar o cabo do chicote

queremos ser iguais ao mais poderoso de nós

isso enquanto não pudermos superá-lo

e assim muito embora quase todos nunca venhamos a sequer livrar o lombo das ardidas vergastadas

vivemos na esperança de um dia o bom deus conceder-nos a sublime incumbência de aquecer nádegas alheias com banho de chibata

pois para tanto viemos ao mundo

imagem e semelhança de nossa mais elevada criatura

que importa a desgraça de tantos em troca da ventura de poucos

é tudo ou nada mesmo

e que se exploda o mundo

não me chamo raimundo

17.12.06

46

escravidão

esta vala metafísica em que afundamos

ou de que nunca saímos

onde quem sabe nascemos e crescemos crendo um dia termos sido melhores e culpando adão e eva

o fato é que esta existência nos força a tanto antes que cheguemos ao que importa

que para a maioria de nós uma vida inteira não basta

se dizemos que algo nunca existiu o que queremos dizer é que aquilo nunca foi testemunhado

afirmar que algo nunca existirá é afirmar o que não se sabe

tão próprio de nós

porém se numa vida inteira vivemos sem testemunhar algo

que importa que esse algo venha a existir depois de nossa existência acabar

porra nenhuma

a vida deve ser agora

e só pode ser com prazer

senão esquecemos que vivemos

a mente se perde em seu tortuoso labirinto

16.12.06

45

que tudo de raro se destrua a fim de raro permanecer

e tudo de comum também se deve dizimar pois o comum existe em abundância e nunca acaba

e entre raro e comum está o homem

transformando o mundo em sucata

mentindo para si mesmo sobre seus desígnios e de tão burro acreditando nas próprias mentiras

não sei por que aceito ser mais um mas sei que sou

e esta consciência só faz tudo pior

quem disse que o conhecimento liberta não conheceu édipo

nem a mim

vivo imerso nesta vida

que indubitavelmente conduz à morte

esse conhecimento esmaece qualquer desejo de vida

até que sentamos parados os olhos sem função a boca cheia de movimentos involuntários

esperando o apagar

esperando que o dia seguinte não venha e as lembranças não voltem

15.12.06

44

banhos de sangue tiroteios garras dilacerando membros agulhas vazando olhos cadeiras elétricas manicures desalmadas

o homem não cansa de causar dor

o homem não cansa de querer ser tratado com amor e compaixão

enquanto forma filas de futuros cadáveres nos matadouros

enquanto trucida em suas guerras justas

por que ao menos não damos um intervalo na brincadeira e admitimos

somos filhos da puta

de verdade

e continuamos a destruir tudo de belo e de bom

sem essa história de amor ao próximo e melhores intenções possíveis

por que nos recusamos a crer em tudo que nos tire do trono que pensamos ocupar

aviso às futuras gerações

seus antepassados são uns bostas

14.12.06

43

sei tão pouco sobre verdade e mentira

tanto quanto sobre ser e não ser

sei sem dúvida que sou obeso careca e que tenho olhos verdes

além das obviedades nada sei

sempre me disseram que o conhecimento me salvaria

donde concluo que estou fudido e mal pago

eu disse fudido porque queria dizer fudido mesmo

ninguém fala fodido

ao menos nos vocábulos chulos os dicionários deveriam reconhecer a supremacia da ralé

é fudido é viado é buceta

chega dessa história de falar um palavrão e escrever um verbete

reconheçam cabeções acadêmicos que ao menos os palavrões vocês não criaram

ao menos neste caso esses catedráticos deveriam reconhecer que não pegaram a burrice do povo e a transformaram em fundamentada pedante e enfadonha estupidez erudita

e caso vocês estejam rindo de desprezo de mim

vão todos se fuder

13.12.06

42

que grande tédio tudo me causa

a grande náusea o grande desejo de desistir de dizer chega cansei deixo a vaga para outro que ele seja feliz que ele seja o contrário de mim que ele vença que ele não se torne um viciado em sofrimento que quando não sofre procura meio por que os outros

porque é impossível coisas melhorarem

até porque olhando assim de fora elas nem parecem tão más

no entanto esta prisão

que triste pequenez

como estou

sem ânimo nem para mover as pálpebras

deixar o sangue

deixar o corpo despencar

não há mão

é incrível como eu

tão sem vontade

seria capaz de expor-me e de me manter exposto

é a lei do mínimo esforço

12.12.06

41

todos os dias abrir os olhos

não ter mais como dormir

e rogar em vão que o pesadelo em que desperto seja melhor que o pesadelo em que fui dormir

que exista um mundo do espelho

e que lá tudo seja como aqui

só que ao contrário

e fechar os olhos mais uma vez

sacudir a cabeça voltar a desunir as pálpebras

mas não tem jeito

esta realidade é pegajosa

eu ainda sou eu

o mundo ainda

meu sentimento por ele também

permanece nenhum

tal como eu nele

sair da cama e dizer

isto aqui deixou de ter graça há pelo menos meu total de anos de vida menos dois

desde então tudo é quase sempre monótono e nas raríssimas ocasiões em que não é monótono é assustador

mastigar a comida porque como todo animal mastigo

quem sabe o que penso ao abrir os olhos e voltar à vida que tão grato esqueci no sono

não sei como traduzir este nó na garganta

não sei se falar

11.12.06

40

todas as explicações uma hora terão que acabar

deveremos aceitar então que nada nos foi esclarecido

que não demos meio passo adiante

que permanecemos como aqueles ratinhos que vivem sob tortura em laboratórios

só sabemos seguir um caminho no labirinto e em seu fim sempre tomamos uma descarga elétrica ao tentar pegar o pedaço de queijo

mas a nossa dor morre conosco

ninguém se dá ao trabalho de imaginar a dor de ninguém

o queijo e o choque elétrico

tanto recebemos choques que um dia se sobrevivemos a eles passamos a evitá-los a todo custo

não importa que fiquemos sem queijo

deus nos aguarda com uma nutritiva barra de sabão para limpar-nos as tripas

destino

por que não sou uma simples ameba ou algo ainda menor e menos complexo

as amebas parecem desconhecer a alegria e a tristeza

só assim se pode ser feliz

10.12.06

39

a todos os futuros defuntos

morramos o quanto antes

deixemos o lugar para os que virão depois de nós

já deixamos bem claro não haver bem que supere nossa maldade

somos daninhos até quando queremos ser bons

e é tão raro querermos o bem

deixemos o mundo em paz

deixemos que ele se cure das feridas que lhe causamos

deixemos que a paz triunfe

comecemos pelos estadunidenses

mas não paremos aí

a humanidade deve acabar

a humanidade com seu deus seu conhecimento sua capacidade inventiva e todas as suas tralhas

todas as porcarias que ela cria para tornar sua vida mais psicótica e o mundo mais podre mais fedido mais feio

a humanidade cujo instinto de preservação converteu-se em compulsão destrutiva

a humanidade que só usa sua capacidade para criar desgraça

a humanidade que só lembra da compaixão quando a corda aperta em seu pescoço

9.12.06

38

se antes de eu vir ao mundo tivessem me dito quão chato assustador violento e deprimente este lugar era o quão frágil desprezível e instável seria minha condição aqui

decerto eu não teria acreditado

como ainda não acreditaria não estivesse passando por tudo que passo

aqui há uma divisão primordial

de um lado fica o homem e do outro o resto

tudo consistindo em binários básicos do tipo homem e máquina homem e natureza homem e deus

nada aqui é muito legal

aqui tudo que é um pouco legal e vale um pouco a pena logo é apropriado por uns pouquíssimos que têm o poder de parir leis

e no mais de qualquer modo as coisas legais são pouquíssimas

a natureza até que é bonita mas dez minutos contemplando árvores cachoeiras e passarinhos bastam para encher meu saco por uma semana

pelo sim pelo não mais vale viver perto da natureza que do ser humano

essa criatura maléfica que como um vírus infectou e vem corroendo este pobre planeta a pretexto de fazer coisas esplêndidas

8.12.06

37

eu gostaria de não ser obrigado a viver nem a morrer

eu gostaria que a vida não fosse este evento à nossa revelia

eu gostaria de ser dono de mim e do universo

mas a única coisa que posso fingir ser minha é a sexta-feira depois do expediente

é o dia em que mais me sinto dono de meu nariz para enfiá-lo na cerveja

pois tenho dois dias inteirinhos para mim

dois dias que passarão tão rapidinho

que me deixarão triste antes mesmo que terminem

mas na sexta-feira eu sou dono de dois dias

dois dias que parecem imensos e todos meus

mas o tempo acaba por mostrar-me cedo ou tarde

o verdadeiro tamanho de meu tesouro cronológico e o quanto ele me pertence

mas na sexta-feira a ilusão é tão real é tão autêntica

maldita sexta-feira que me faz ainda amar este mundo por algumas horas

mas nem a sexta-feira é minha

se fosse eu a guardaria dia a dia por anos e anos

7.12.06

36

não sei o que estou esperando

talvez que o céu caia sobre minha cabeça e que isso seja uma bênção

contanto que o céu não seja muito pesado

só o bastante para cair

nada no mundo me faz falta

por isso sinto falta de tudo

não preciso de nada além de tudo

pensar num único sentido tornou-me insensato

é de nascença e vai morrer comigo

comoriência

quando eu morrer o que ficar de mim não será mais eu

os arroubos tolos os sentimentos frouxos

que até eu quero esquecer

as canalhices

até hoje não sei se enxergo

até hoje não sei se penso

acho que vivemos tanto só para aceitarmos pelo cansaço que somos umas bestas

e mesmo quando reconhecemos isso não somos capazes de admitir que nos tratem como a besta que somos

afinal não sabemos se a besta que como besta nos trata é mais ou menos besta que nós

e lá bem dentro reside a insegura convicção de que a besta maior é o outro

6.12.06

35

hoje matei não sei quantos em pensamento

conquistei um monte de glórias imaginárias

fui brilhante

inexcedível

curei o câncer a sida e acabei com a fome no mundo

subjuguei o quarto reich e fiz o filho do bush desfilar em praça pública com as calças arriadas

fui campeão mundial de fórmula um umas duas ou três vezes só hoje

tornei-me o mais brilhante escritor do mundo

ganhei bilhões de dólares

comi mulheres esplêndidas

passeei com dois ou três ferraris da minha coleção

usei algumas edições limitadas da omas da dupont da namiki e da pelikan

além de uma duofold sênior amarelo mandarim

todas da minha coleção

recebi o nobel e o oscar além de várias condecorações de diversos governos todas no mais elevado grau

em todos lugares por que passei estenderam-me tapetes vermelhos

e ofereceram-me de bom grado as mais valiosas riquezas

deus franqueou-me a porta do céu e disse-me para trazer os amigos

e depois disso levantei-me da cama e fui me preparar para sair e bater meu ponto no trabalho

5.12.06

34

minha nossa como sou chinfrim

se me mandassem escolher entre mim e qualquer outro caso eu fosse honesto me veria obrigado a dizer que viva outro qualquer

mas estou a salvo

a honestidade não é meu apanágio

não tanto quanto a ganância

não tanto quanto o desespero

e o egocentrismo

mesmo assim não posso negar

sou chinfrim pra caralho

com meus talentos incompletos

com meu salário magrelo

com minha rotunda pessoa e meus paquidérmicos repastos

acho-me tão importante que até me dispenso de esforços para brilhar

esforços de que o mundo entretanto não me dispensa

e na hora em que preciso brilhar revelo-me opaco

e só

se eu fosse tão interessante por dentro quanto sou desinteressante por fora

mas por dentro sou algo assim como uma lista telefônica

um monte de papel barato de limitada serventia que em qualquer lugar se pode encontrar

minha nossa como sou chinfrim

4.12.06

33

mais um dia em sacrifício ao deus trabalho

na verdade quase não trabalhei simplesmente sentei à mesa e dediquei-me à nem sempre sutil arte de enganar

não uso o subterfúgio da retaliação pelo salário miserável

pelo menos aqui escrevendo coisas para ninguém ler sinto-me obrigado a ser sincero

e sinceramente odeio trabalhar

odeio ter o direito alheio em minha mão

logo quem

logo eu que só queria sono

um sono incoercível interminável

esquecer o peso de existir

esquecer que eu também fiz minha parte para um mundo mais infeliz

estes fantasmas são como cupins na alma

3.12.06

32

hoje acordei

este suor não sai

esses animais barulhentos que a pretexto de uma nojenta juventude sadia enchem o mundo com sua música de última categoria só porque esse é um jeito jovem e consentido pelas autoridades de demonstrar alegria

é horrível saber que o mundo de fora é ainda pior que o de dentro

não bastava esta miséria de viver dia após dia

entre os dias precisava haver o domingo

e a nauseabunda juventude a escorrer hormônios pelos poros

2.12.06

31

a existência perfeita sempre será a alheia

sou apenas um anônimo sem rosto

um suburbano gordo e careca constrangido diante do poder

faça sua escolha verme invejoso

ou viver na morte ou morrer na vida

sem luz sem sabor sem valor de mercado

impossível imaginar

só acontecendo para crer

como pode tanta distância entre desejo e realidade

como crer possível

até que nos aconteça

todo dia da vida

toda a vida

1.12.06

30

desde que descobriu como se livrar da sobriedade

o homem não faz outra coisa

a realidade é monstruosa

e só faz piorar

nossa íntima convicção

só de cara cheia nos suportamos