5.11.06

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pergunto-me se poderei ser

mais que aquilo que me criou

se poderei ser algo que minha fonte não seja

cada vez mais me convenço

de que vivo num engano

de que a individualidade que presumo minha

não existe

sou filho de uma matriz

chocado numa incubadora

uma reprodução abortada

como essas casas de cenário

que só possuem as partes necessárias à narrativa alheia

não foram feitas para se viver

nada são por si próprias

jamais serão um lar

ainda que me sentem num trono nas nuvens

ainda que me dêem o poder do verbo

ainda que em menos de sete dias eu construa e destrua dois universos e comece um terceiro

não deixarei de ser só um lamentável ser que pensa ser