12.11.06

11

aqui estou afogado em medos

se algum dia falei a verdade

foi mero acaso

tanto que nem notei

isto é tão enfadonho

sempre ser o último

junto com mais um monte de gente

sempre ser a falha

mais uma

estar sempre com este incômodo

até me habituar a ele

até crer em sua utilidade

e não saber viver senão a ferros

nada extremamente terrível

nenhuma dor insuportável

não mesmo

só aquelas coisinhas fora do lugar

coisinhas de somenos irremediavelmente erradas

uma penitência branda e prolongada

a proibição de desejos satisfeitos

a falta de força que ergue muralhas

ninguém vai ficar sem respirar

só não se pode nunca sorver ar bastante

ninguém vai nos faltar com o respeito

só não vão nunca nos considerar

não há espaço para queixa

ninguém me ama ninguém me odeia

é só sempre esta coisa pelo meio

3 Comments:

Anonymous Anônimo said...

Querido Henrique


Um pouco tarde, li rapidamente o que você escreveu... e lembrou-me muito do que li em Hermann Hesse no livro "O lobo da Estepe". Aliás, eu ontem fiz o download do livro, mas está em PDF, teria que converter pra word...


Salvando e convertendo...


Putz, Henrique... está demorando pra converter o livro, eu talvez procurasse e citasse algum trecho aqui, mas fica para uma próxima.


Existe uma palavra em alemão para esta sensação entediante que o tão louvado e sacramentado meio termo nos provoca: Langeweile (tédio, enfado, etc.).


Eu também não consigo nem gosto de ser comedida... aliás, ao dizer que "é só sempre esta coisa pelo meio" você já está fora dela. Pelo menos internamente.



Beijos, comecei a converter o livro, e agora acessei a página do Orkut onde a Rose fala que o filho deles está doente... meu sobrinho... mas não deve ser nada sério não... ela escreveu: My baby tdodói dodói! bjus


Pois é... o tempo passou tão rapidamente hoje... como eu sinto que ele se esvai espantosamente rápido...



Beijos, querido.




Verinha Rath - a ermitã do Monte Riedlingen.

13/11/06 19:38  
Anonymous Anônimo said...

Um trecho do livro de Hermann Hesse, O LOBO DA ESTEPE, que também postei no meu blogg. Tem tudo a ver com seu post.




ANOTAÇÕES DE HARRY HALLER

Só para loucos

O dia passara como normalmente passam os dias: eu o havia desperdiçado, dissipado suavemente, com minha primitiva e arredia maneira de ser; trabalhara algumas horas a compulsar velhos livros e sentira dores durante duas horas seguidas, como os velhos costumam sentir; engolira uns pós e me alegrara porque as dores se haviam deixado enganar; metera-me num banho quente e absorvera o agradável calor; recebera três vezes o correio e correra a vista pelas cartas e os impressos sem importância; fizera meus exercícios respiratórios, mas achara conveniente transferir para outro dia os exercícios mentais; dera um passeio de uma hora e vira, recortados contra o céu, delicadas e belas amostras de cirros preciosos. Agradável, assim como ler os livros antigos ou demorar-me no banho quente, mas, afinal de contas, não fora a bem dizer um dia encantador, nem brilhante, nem feliz, nem plácido, mas tão somente um desses dias como desde algum tempo costumam ser os normais de minha vida: moderadamente agradáveis, totalmente suportáveis, toleráveis, tépidos dias de um velho e descontente senhor, dias sem dores particulares, sem singuiares preocupações, sem aflições especiais, sem desesperos, dias em que até mesmo a pergunta, de que se não seria o momento de seguir o exemplo de Adalbert Stifter e degolar-se com a navalha de barbear, era meditada tranquilamente sem emoção, sem qualquer sentimento de angústia.
Quem havia passado pelos outros dias, aqueles terríveis de ataque de gota, das dores malignas por detrás dos globos oculares, transformando a alegria de ver e de ouvir num tormento alucinante sob os efeitos da enlouquecedora enxaqueca, ou aqueles dias de morte da alma, perversos de vazio interior e desespero, nos quais em meio à terra destroçada e ressequida pelas sociedades anónimas, o mundo dos homens e a chamada cultura ri-se de nós a cada passo com seu enganoso e vulgar esplendor de feira e nos atormenta com uma persistência emética, e quando tudo está concentrado e levado ao clímax do insuportável dentro de nosso próprio ser enfermo, — quem já havia passado por aqueles dias infernais mostrava-se bem contente com estes de agora, normais e vulgares, em que se sentava agradecido junto à estufa a ler os jornais, verificando satisfeito que não estalara nenhuma nova guerra, que não surgira nenhuma nova ditadura, que não se descobrira nenhum nauseante escândalo no mundo da política e das finanças, e podia planger agradecido as cordas de sua empoeirada lira para entoar um salmo de graças em tom moderado, suportavelmente alegre, quase regozijante, com o qual aborrecerá seu calado e tranquilo semideus, um tanto anestesiado pelo brometo, e no morno ar desse contente aborrecimento, dessa ausência de dor tão digna de nota, o semideus solitário e o semideus um tanto encanecido que cantava o saí-mo incolor pareciam gémeos. Muito se teria de dizer sobre esse contentamento e essa ausência de dor, sobre esses dias suportáveis e submissos, nos quais nem o sofrimento nem o prazer se manifestam, em que tudo apenas murmura e parece andar nas pontas dos pés. Mas o pior de tudo é que tal contentamento é exatamente o que não posso suportar. Após um curto instante parece-me odioso e repugnante. Então, desesperado, tenho de escapar a outras regiões, se possível a caminho do prazer, se não, a caminho da dor. Quando não encontro nem um nem outro e respiro a morna mediocridade dos dias chamados bons, sinto-me tão dolorido e miserável em minha alma infantil, que atiro a enferrujada lira do agradecimento à cara satisfeita do sonolento deus, preferindo sentir em mim uma verdadeira dor infernal do que essa saudável temperatura de um quarto aquecido. Arde então em mim um selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vida desregrada, baixa, normal e estéril, bem como um desejo louco de destruir algo, seja um armazém ou uma catedral, ou a mim mesmo, de cometer loucuras temerárias, de arrancar a cabeleira a alguns ídolos venerandos, de entregar a um casal de estudantes rebeldes os ansiados bilhetes de passagem para Hamburgo, de violar uma jovem ou de torcer o pescoço a algum defensor da ordem e da lei. Pois o que eu odiava mais profundamente e maldizia mais, era aquela satisfação, aquela saúde, aquela comodidade, esse otimismo bem cuidado dos cidadãos, essa educação adiposa e saudável do medíocre, do normal, do acomodado.


Atenção: converti do formato PDF para WORD sem fazer qualquer revisão, pode haver erros.


Beijos,



Verinha Rath

13/11/06 20:09  
Blogger o amanuense said...

Minha amiga
Pela primeira vez li algo de Hesse e gostei. Já li "Sidarta" e "Narciso e Goldmund" e, francamente, achei um saco. Gosto muito de um contemporâneo dele, Thomas Mann, dizem inclusive que os dois se estimavam muito, mas o Mann era menos espiritualista, o que acho bom. Dele já li "A montanha mágica", "Doutor Fausto" (umas 5 vezes, tornou-se quase uma obsessão, até gostei quando emprestei o livro e a pessoa não devolveu), "Tonio Krueger" e "A morte em Veneza" (também vi o filme, do Visconti, se não me engano, com Dick Bogarde, muito triste, mas muito bom), além de uns contos. Dizem que o forte do Hesse é a poesia, mas que ela é intraduzível, por isso só quem sabe alemão pode desfrutá-la. Mas gostei muito desse trecho que v salvou aqui na goteira. Esses textinhos que estou colocando aqui são de uns cadernos meus. Em 1.1.2004, determinei-me a escrever todo dia uma folha de caderno escolar nesse meu estilo torrente. Escrever não importa o quê, mas uma folha, frente e verso, 2 páginas todo santo dia. Mantenho essa rotina até hoje. Resultado: já tenho 15 cadernos cheios (alguns são de 48, outros de 96 folhas, todos mais ou menos da altura e da largura de um estojo de dvd). E agora resolvi transcrevê-los aqui no blog. Claro que dou uma filtrada, pois nos cadernos, escritos meio no ritmo do desabafo, há coisas que poderiam até render-me um processo por injúria, difamação, etc.
Em resumo, o que venho fazendo é pegar pela ordem as coisas que escrevi desde o começo, dar-lhes uma guaribada e colocá-las aqui. Assim, meu texto 1 é a versão retocada do que escrevi em 1.1.2004, o 2 é a versão retocada do de 2.1.2004 e daí por diante. Ou seja, são coisas escritas há quase três anos sempre nesse estilo fluxo mental, que passam por uma censura de natureza estilística e ideológica. Há muita repetição, lógico, mas também há uns desdobramentos do meu parco pensamento. Se você acompanhar essa evolução, acho que verá que, ao menos nas palavras, meu pessimismo é quase insuperável.

13/11/06 22:12  

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