30.11.06

29

esta prostração existencial

todo silêncio

todo caminho conduz a esta roma dos sonhos frustrados

o panaca perplexo sentado boquiaberto e invisível

ninguém podia ser pior

ver a ele e a nada num só

desde que se lembre que o nada é mais agradável

ao menos é algo definido

não um borrão na paisagem que ninguém sabe o que é

mais invisível que qualquer gás letal

menos letal que qualquer mal imaginário

a tradução de todos os fins sem causa

noites sem sono

29.11.06

28

por que a faculdade de escolher se toda escolha conduz à mesma vala

se não importa quantas palavras

a verdade nunca

para que a inestancável logorréia

buscar conhecimento como se conhecimento fosse sabedoria

a fábula iluminista

convertida em máxima da ganância

antes tudo fosse tão-só uma questão de força bruta

que tudo sempre acaba em brutalidade

então que seja uma brutalidade simples de entender

não essa pancadaria unilateral sanguinolenta apoiada em retóricas veementes

pois mesmo o sadismo mais extremo deveria conhecer limites

então não venha justificar meu sofrimento

faça-me sofrer e pronto

ao menos tenha a decência de nada dizer

cumpramos nossas obrigações

depois de tanto infligir dor já não há como mentir

o que se busca é cada vez mais amargura

quando nada sejamos honestos

28.11.06

27

tudo que sei é falar

sem humor sem graça sem prazer

repetir

pois tudo já se disse

nada de criação

nada de interesse

tão chato de escrever

pior ainda de ler

sentemos aqui e esperemos que a lápide ande

minha especialidade

esperar o que nunca

no meio tempo destruir-me inexpressivo

disseram-me que o mundo vai acabar

para que dar início à vida

tudo começa e termina à revelia

sou mais uma peça de mostruário

não acabo nem começo

fico

não por querer

pois não quero

pudesse eu mudar algo

faria com que eu não fosse eu nem ninguém mais apenas

mas que eu pudesse ser quem eu quisesse quando bem entendesse

e que não vivesse no permanente atordoamento da imutabilidade

procurando esquecer que não sei ser

27.11.06

26

nunca saio de mim

nunca tenho algo de novo a oferecer

movo-me sempre entre muros

sinto-me em segurança

vivo segundo dois princípios conflitantes e indissociáveis

cuja oposição sempre faz meus esforços resultarem em zero

fui sepultado dentro de mim por mim mesmo

e sob este exterior há uma permanente luta

entre todos que sou que não quero ser que tento ser que outros querem que eu seja

desperto como se permanecesse dormindo

com medo

procurando surpreender a mim mesmo

sei que não sou quem mais sofre no mundo

mas sei ainda mais que não sei ter prazer e amar

e que quase não me comovo com as agruras alheias

26.11.06

25

todo dia a folha em branco sobre a mesa

esta obrigação de palavras

a serviço de pensamentos que nem sei se são meus

falar sozinho num banco de praça

como mais um bêbado amargo

tremo diante da verdade

rastejo por qualquer migalha de fantasia

aceito o caminho que não escolhi em cujo início uma placa inequivocamente avisava morte adiada mas certa

basta-me esta espera

quem precisa morrer quando sabe que vai morrer

quem precisa da segunda quando há o domingo que sabemos certamente ser o dia antes do dia em que se deve voltar ao calabouço

ninguém pode ser feliz

exceto aquele que determina que ninguém pode ser feliz

no mais tudo não passa de dados que se devem adequar a metas

é nossa obrigação entender de uma vez por todas

os sonhos são o ingrediente básico da decepção

os pesadelos são metade da realidade

no mundo real os canibais bem sucedidos ocupam gabinetes

e lá fora suas presas pascem ou passam fome

25.11.06

24

por que essa necessidade de ordem

por que tudo segundo nossa mente

por que manter

por que matar

e viver vomitando explicações que não revestem de justiça o horror que criamos a pretexto do bem

por que não é mais fácil admitir nossa monstruosidade

porque parte de ser monstruoso implica manter este silêncio de iniciado

chega uma hora em que deixamos de ser meninos

convertemo-nos ao culto do horror

e partimos pela vida ajudando a destruir um mundo melhor

e depois os escrúpulos

o pior são escrúpulos em quem já praticou atrocidades

esse é o principal sintoma da mente monstruosa

que impinge uma sensibilidade de anjo

na pessoa de um demônio

24.11.06

23

há muitos dias querendo passar

por isso são tão curtos

e o mundo tão fugaz

tudo vai sem nem vir

morre-se antes de se viver

seres nascem antes de se conceberem

não houve dúvida antes deste entendimento

e não houve fato que despertasse a dúvida que não houve

por trás de meu conhecimento apócrifo reside a ignorância

não sei por que sei

vivo por nada

talvez por crer que raciocínios me trarão respostas

o silêncio é tão mais gratificante

as coisas que penso poder ver apavoram-me mais que tudo que vejo

o aspecto não é a aparência que não é o exterior que não é o que vejo

provavelmente a resposta já foi dada

e eu ainda espero aqui sentado

23.11.06

22

não vale a pena a vida sem talento sem inspiração sem dinheiro sem reconhecimento sem um monte de mulher bonita macia cheirosa gostosa

mais da metade desta droga de vida já passou

não será o bastante para notar que nunca terei nada disso

a felicidade é um momento curto

uma droga potente cara e breve

cuja ressaca é a melancolia

que tento curar com o destempero

neste recinto de janela fechada num dia de sol sem esperança

gritos e golpes inesperados

a raiva enchendo todos os cantos

a crença no que nem creio

a nuvem que não se dissipa por mais que chova

por mais que ventos

a porta permanece fechada e seu silêncio só não é maior que sua imobilidade

tudo cada vez mais se distancia

e o medo de dizer algo impróprio

o silêncio até fica ruidoso e o medo

22.11.06

21

nada a dizer

dias de muita chuva

nem muito lá nem muito cá

mas como eu gostaria de tudo fácil ao extremo

apenas cama televisão e leitura

mais uma generosa porção de sexo bastante comida e bebida e liberdade para pitar meu cachimbo

mas querer isso é querer muito

já tenho tudo

esta tranqüila escravidão

e quem me ame e cuide de mim e me faça ter vontade de viver

e o tempo é tão pouco

depois da vagabundagem quase não dá para fazer mais nada

deixo a luta para amanhã

vou dormir mais um pouco aqui na beira do abismo

onde quer que eu esteja nunca acontece nenhuma maravilha nem nenhum cataclismo

sendo assim

já que nada vai mudar

para que passar água na peneira

a água simplesmente passará

quando fizer frio terei um cobertor

quando fizer calor terei uma brisa

e sempre que me sentir só terei esta legião de desejos

21.11.06

20

o homem criou a máquina

a máquina recria o homem

e cada um sofre as deficiências do outro

a máquina completa o homem tornando ridículo seu humano sofrimento

o homem cria máquinas e imagina máquinas criando máquinas

a facilidade trazida pela máquina deixa o homem livre para superar novas fronteiras na criação de dificuldades para as quais novas máquinas surgirão

e assim se vai

para frente diriam os arautos do progresso

a lugar nenhum diriam os pós-modernos que não sabem viver sem automóvel e telefone celular

não passamos de cães sem cauda correndo atrás da própria cauda

o inatingível inexistente

o novo símbolo do infinito

caralho eu não passo de um moralista

mas quando olho para a espécie a que pertenço

que bosta minha nossa

que serzinho desinteressante e narcisista que sou

nunca querendo apenas a felicidade

trocando o cheiro bom do mundo pelo fedor de petróleo processado e queimado

era o caminho a seguir

torturar animais pelo progresso da ciência

o saber é desprezível

20.11.06

19

mais um dia nesta vida normal

começa com um abismo

termina com um chão de pedra

entre os dois há uma queda e alguns percursos de automóvel e um escritório e o velho viver enganando para viver enganado

nada entre mim e mim

nada entre mim e nada

quero dormir

não que eu tenha perdido a esperança

mas agora acho que só tenho a esperança de um dia não ter esperança alguma

e de passar por um transplante de emoções e por um outro de conta bancária

e de por fim ter um outro nome um outro endereço uma outra vida

pois nada pior que ser condenado à pena perpétua de ser eu

pelo resto dos tempos

sem dinheiro sem expressão sem poder e abarrotado de todas as espécies possíveis e imagináveis de desejos dos melhores e dos piores

o pior é ser este fim de comédia

é mais fácil mudar o sentido de rotação do planeta que mudar isto

19.11.06

18

tenho mentido

de longa data

criaram-me na crença de que sou digno de algo

pura conversa

e ainda querem que nem de longe eu tenha a idéia de tirar o time de campo

tento fazer que não ligo para o conhecimento

mas lá no fundo arraiga-se a velha pretensão

de desvendar o segredo último do universo

como se o mundo ocultasse algo de minha vista

e não fosse eu que teimasse em não abrir os olhos

má notícia para quem esperava haver um bem infinito

sempre haverá bem e mal

e a dor do mal sempre será maior que o prazer do bem

e nós nunca seremos mais que os carcereiros de deus

continuaremos buscando virtudes para pisoteá-las

e calaremos quem não nos adorar

nada pode a bondade perante a força

18.11.06

17

tudo é ciclo

tudo começa e termina para recomeçar

que saco

onde vim parar

tenho saudade de coisas que nunca tive

sinto falta de uma felicidade nunca sentida

vivo como membro desta espécie boçal

que criou deus aprisionou-o no porão e lá o deixou vertendo sangue

e sob tortura obrigou-o a assinar um documento

dizendo-nos seus filhos e transmitindo-nos seus bens livres de gravame

quem precisa de mais

quando tem tudo

mete o velho no porão

tranca o velho num asilo

já cansei da ética deste mundo

não há bons homens

nunca os houve

só há este clima

cada dia mais quente

cada hora mais estreita no funil

e a cada recomeço a repetição da mesma monótona série de ligeiros infortúnios

17.11.06

16

quem nunca viu um místico

aquele camarada que posa de sábio conhecedor do além

age sereno e olha penetrante

aquele jeitão de quem conhece mais que todos e de que isso não passa do mais natural dos fatos

nada em sua vida é comum

tudo transcende

tudo se rege por arcanos milenares

até o ato de deitar no sofá numa tarde de ócio para ver tevê e mamar uma latinha de leite condensado

ele é o mistério em forma de gente

a fada malvada

a bruxa boazinha

de todo esse ar de papisa

só uma coisa me intriga

por que para ter contato com o além

precisa um sujeito ser tão afrescalhado

16.11.06

15

não é todo dia que se olha

para uma vida sem fatos

e se tem o que contar

eu poderia ser qualquer um

qualquer outro

nada meu é único

nem de longe

mas sou obrigado a encher o vaso todo dia

com o que seja

então vale tudo

que mantenha em pé o espantalho

não há melhor nem pior

só a necessidade

há que se gastar papel tinta e tempo

não tenho o que dizer

busco assunto em mim

a coisa no mundo que me é mais próxima

não deixo de ser uma espécie de realidade

sei lá se tão real

sei lá se tão próxima

apenas conheço alguns de meus comezinhos meandros

e não faço mais que neles perder-me

tudo é bem igual

tapo o nariz e deixo que o barco siga ao sabor do esquecimento

não vim ao mundo para compartilhar

alegrias ou infortúnios

queria somente um convite para a farra

não ficar aqui de porteiro

15.11.06

14

sei lá por que não derrubo esse muro

acho que não saberei o que fazer depois dele

parece que o carrego comigo

e onde quer que eu esteja sempre o coloco para o lado do qual venha mais vento

mas o muro como uma planta parece crescer sem parar

e não conheço ninguém que faça poda em muros

e o muro cresce a olhos vistos

vejam já quase não consigo carregá-lo só

preciso de alguém que compartilhe este fardo comigo

quem sabe uma cara metade para formar família e dar à luz inúmeros murinhos

que lindo

quem sabe daqui a alguns anos eu não compareça à formatura de um dos rebentos

e quem sabe ele não se forme engenheiro civil para tentar compreender sua origem e natureza

quem sabe eu e o muro não sejamos parentes no futuro

ai que rima besta

14.11.06

13

se nascemos se vivemos

então nunca deveria haver vácuo na existência

não há morte passageira

mas viver tantas vezes é tão sem nada

encho-me de dúvidas

sinto que a interrogação cai no vazio

procuro não encontro como me furtar ao sabor da sorte a sorrir tão perversa

não sei para onde todos foram

sim eu sei que nunca houve ninguém de verdade aqui

mas bastavam as presenças imaginárias

e agora nem elas

isso não satisfaz nem embriaga

13.11.06

12

e se um dia o homem perceber que não é tão superior assim

e que os demais seres talvez nem sejam inferiores

talvez seja um perigo

talvez cheguemos à conclusão de que nada nem ninguém está mais próximo ou mais distante de deus do que nós

e que não somos tão melhores em tudo quanto dizemos

o homem fabricou um deus para se adorar e veicular sua hipocrisia

falar em compaixão

e chafurdar em paixõezinhas rasteiras

12.11.06

11

aqui estou afogado em medos

se algum dia falei a verdade

foi mero acaso

tanto que nem notei

isto é tão enfadonho

sempre ser o último

junto com mais um monte de gente

sempre ser a falha

mais uma

estar sempre com este incômodo

até me habituar a ele

até crer em sua utilidade

e não saber viver senão a ferros

nada extremamente terrível

nenhuma dor insuportável

não mesmo

só aquelas coisinhas fora do lugar

coisinhas de somenos irremediavelmente erradas

uma penitência branda e prolongada

a proibição de desejos satisfeitos

a falta de força que ergue muralhas

ninguém vai ficar sem respirar

só não se pode nunca sorver ar bastante

ninguém vai nos faltar com o respeito

só não vão nunca nos considerar

não há espaço para queixa

ninguém me ama ninguém me odeia

é só sempre esta coisa pelo meio

11.11.06

10

toda preocupação é um fardo inútil

que também não deixa de ser um passatempo

que fazer para justificar meu pecaminoso ócio

senão preocupar-me

não busco o bem-estar

nem acho que deva

quero que ele me caia no colo

pois do contrário não será bom

quero que magicamente ele surja

e que de então em diante eu me veja livre da escravidão

não sei como conseguimos

mas conseguimos

somos escravos livres

a inconciliável união do fato com a crença

somos livres para escolher nosso cativeiro

somos livres para viver e morrer

se escolhemos morrer

se não escolhemos morremos do mesmo jeito

não sabemos o que vem depois

damos rédeas ao medo

que nos governa e nos faz viver

e vivendo nos entupimos de desejos

que nos levam a assumir

desmedidas obrigações

para adquirir alimento e prosseguir

sem medida de prazer

sem saber por quê

não sabemos como não morrer

como sucedâneo criamos deus

10.11.06

9

não conheço outra espécie que promova chacinas

e invente deuses

e remoa culpas

nada conheço mais burro que o homem

nada que promova banhos de sangue em nome do bem

devíamos

pelo bem da própria humanidade

a fim de não pagarmos mais micos

dar por encerrada nossa história

esta piada

basta de fracassos

chega não deu certo ponto

cometamos a última desgraça

esta sim pelo bem do universo

suicídio coletivo

acabemos conosco

ninguém sentirá nossa falta

o mundo não deixará de existir por causa disso

até pelo contrário

talvez os pobres animais que cooptamos a nosso convívio

esses talvez sintam nossa falta

pois os tornamos dependentes involuntários desta maravilha de sociedade de consumo

não há como fugir desse mal

os inocentes sempre pagam por nossos brilhantes feitos

mas já passou tempo bastante para concluirmos que isto aqui nunca vai funcionar

doravante deixemos o mundo em paz

livre do ser humano

a bosta pensante

9.11.06

8

na grande masmorra

os ricos e influentes

pagam pelo privilégio

de ver os inferiores nos melhores aparelhos de suplício

todos apenas em busca da felicidade

todos apenas cumprindo seu legítimo dever

de gastar o quanto antes

no efêmero

o bastante para toda uma família viver mais que bem uma longa vida

de todas as éticas escolha-se justo a da ganância

tudo se justifica pela busca do éden e por uma molhadinha na mão da autoridade que também só quer ser feliz porra

tudo é questão de posição

quase um princípio zen

deve se partir a coluna alheia

sem deixar notícia do fato

vamos devorar o pato

a ralé paga a pitança

que dignidade só presta

quando se pode ir para a cadeia

no mais de que vale honra sem brilho

de que vale toda cintilação

que não seja de moeda sonante

8.11.06

7

todo dia chuva e papel

e a tela do computador

a revelar minha íntima aversão ao trabalho

xingamentos e silêncio

silêncio e xingamentos

e a busca de uma partida

quanto mais pensava em sair dali flutuando

mais preso me via na cadeira

mais rastejava

o mais que tudo me repugnasse

o mais que tudo me aderia à pele

maior a solidão

maior o vozerio aqui dentro

sólido de menos

muita água veio do céu

deve ser chuva

os corpos em queda livre um dia quiseram parar

e assim permanecer

até que se chegasse a um acordo

que lhes proporcionasse melhores condições de cair

não adianta ficar aqui

esperando brotar em mim o amor pela vida

7.11.06

6

que interesse pode haver quando se sabe não haver saída

como querer viver quando se sabe

não fui eu que quis esta vida

como ser feliz nesta pindaíba

dinheiro não compra tudo vá lá

mas é bem sabido

sem dinheiro nada se compra

dinheiro não compra felicidade

então seja feliz sem dinheiro

ria como um rico com essa boca banguela de pobre

ninguém mais ri como um rico

mesmo impassível o rico emana um riso

dinheiro é bom de qualquer jeito

na saúde e na doença

na alegria e na tristeza

o rico pode escolher

o rico pode renunciar à riqueza

o rico pode escolher ser pobre

e o pobre do pobre

vá o pobre renunciar a sua pobreza

dinheiro compra oportunidades

dinheiro compra conforto independência

dinheiro compra gente

não há problema se dinheiro não compra felicidade

aceito de bom grado ser um rico triste

já seria um problema a menos

6.11.06

5

hoje senti uma calma

uma calma após o expediente

uma calma assustadora

que ninguém deveria sentir

uma calma que me fez deixar pedestres atravessarem a rua

uma calma que me subtraiu da comunidade de emoções habitual

uma calma que me causou um estranhamento profundo

embora calmo

uma calma de que amanhã ou depois me arrependerei

uma calma de que até o fim do dia

permita deus

estarei curado

uma calma que não dói

mas que assusta

mais que o terror

mais que a raiva

uma calma que se não me fizesse calmo

me faria desesperar

já me bastam meus velhos vícios

5.11.06

4

pergunto-me se poderei ser

mais que aquilo que me criou

se poderei ser algo que minha fonte não seja

cada vez mais me convenço

de que vivo num engano

de que a individualidade que presumo minha

não existe

sou filho de uma matriz

chocado numa incubadora

uma reprodução abortada

como essas casas de cenário

que só possuem as partes necessárias à narrativa alheia

não foram feitas para se viver

nada são por si próprias

jamais serão um lar

ainda que me sentem num trono nas nuvens

ainda que me dêem o poder do verbo

ainda que em menos de sete dias eu construa e destrua dois universos e comece um terceiro

não deixarei de ser só um lamentável ser que pensa ser

4.11.06

3

há coisa pior que trabalho
não sei o quê
mas sempre há
também segundo essa regra
deve haver ser pior que o empresário
difícil imaginar
mas deve haver
num caso ou noutro
não devem ser muitos
os piores
mas enfim
nesta imensa feitoria
atividade pior que o trabalho
gente pior que o empresário
o obscurantismo é infinito
tudo em nome da liberdade de sugar o sangue alheio
liberdade de escolha e mobilidade social
é melhor acreditar que isso existe
melhor não duvidar desse objeto de decoração conhecido como deus
ele criou o mundo
e pôs tudo a nosso alcance
comprimidos navalhas armas de fogo prédios altos cordas e tudo mais
não se queixe de falta de meios motivos ou oportunidades
não deixe para amanhã o que se pode morrer hoje

3.11.06

2

que importa palavra é tudo igual
sob todas se pode ocultar a verdade
sobre tudo sempre há palavras zelosamente guardadas artifícios semânticos
o sumo talento dos hipócritas
o que se diz não é o que se diz mas o que as palavras
bem vindo à vala
aqui não se é dono de nada
mas tudo se pode
contanto que se disponha de força bruta
o grande argumento dos filhos da puta
e se tenham umas palavras para distrair os fracos e os que não antipatizam de todo conosco
no último dos casos use-se a crueldade
crueldade sempre vai bem
pièce de résistance
cristo buda maomé a puta que pariu
qualquer motivo basta para se fabricar um deus e virtuosamente estraçalhar o próximo e o distante

2.11.06

1


devia não mais perder tempo
devia sepultar todo subterfúgio
mas especializei-me no banal
tanto me apurei na arte
que tiro todo relevo
do que seja
sou só um vampiro de mim
um pedregulho habita-me o peito
foram anos treinando para viver morto
que o bom da vida começa quando se morre
da vida ninguém tem medo
que burrice
o medo dos vivos é a morte
como vai um morto temer a morte
morte é que nem caxumba
pegou uma vez fica imune
mas nem morto nem vivo
sinto-me eterno